
O DIABO DE FERRO E O DIABO DE CARNE
---------------------------------------------------
- Volte agora e traga mais!
- Não posso. Juro que não posso!
- Claro que pode. Você vai voltar agora, já!
- Não, por favor, eu imploro, não há como trazer mais. Não voltarei vivo. Existe algo que você não sabe.
Antígono e Misantropo eram dois irmãos muito diferentes entre si. O primeiro vivia para as coisas reais, para sólidos projetos, mesmo que todos eles fossem com as frágeis bases dos seus próprios devaneios. Misantropo saiu-se ao contrário apesar de suas próprias ambições serem não mais que partículas microscópicas de realidade. Na verdade ele gostaria de submergir numa belonave e vir à tona anos depois trajando um belo escafandro e com a mão cheia de dólares. Um pragmático e o outro sonhador. Receita potencial para qualquer coisa, até para a tragédia, aos moldes de Misantropo, diga-se. Dormiam no mesmo quarto e entendiam-se bem, até uma ocasião em que Misantropo, acometido por um afebre alta devido a uma infecção, passou a ter sonhos bem estranhos, e mais estranhos ainda foram os seus resultados. Depois de convalescer dois dias em sua cama, Misantropo sonhou mais uma vez.
- Êi cara segure isso aqui para mim e não saia daqui de jeito nenhum até eu voltar - disse o velho entregando uma velha bolsa de couro ao rapaz.
- Não posso ficar aqui senhor - gritou inutilmente Misantropo ao velho de longas passadas que ainda deu uma última espiada para trás e gritou:
- Trarei m ais, e não se preocupe que o diabo de ferro está atrasado hoje.
----------
-Ta..tapas!?
Aquilo eram tapas nas suas bochechas febris. Alguém lhe batia aos gritos.
- Acorde cara!
- O que foi?
- Você estava tendo um pesadelo e assim não há quem durma né! - esbravejou Antígono.
- Desculpe
- Que diabos é isso que você está agarrando como uma bóia salva-vidas?
- Hã!
Misantropo levantou a cabeça levemente e viu a bolsa de couro velho. A bolsa que o velho lhe entregara no sonho e o mandara segurar e esperar sua volta. Será que ainda estava sonhando? Não, não era possível. O seu quarto e os tapas do irmão eram bem reais.
- Vamos diga o que há aí!
- Não sei
- Então vamos abrir
Antígono tomou a bolsa gasta nos braços e abriu as duas alças que a fechavam. Ao abrir faltou-lhe fôlego para revelar o conteúdo ao irmão enfermo.
- Céus! Isso aqui está recheado de dinheiro. Como você conseguiu tudo isso?
- Não é meu. É do velho que estava a pouco no meu sonho. Ele disse que eu esperasse que ele ía buscar mais. Mas daí você me socou e eu acordei.
- Você têm que voltar e pegar mais. Imagine o que poderíamos fazer juntos com toda essa grana, nós dois Misantropo, nóis dois!
- Não posso voltar
- Claro que pode. É só fechar os olhos e adormecer. Você vai encontrar o tal velho. Tome, leve a bolsa para ele saber que você ainda está lá com ela. Assim que ele te entregar a outra, grite a todos pulmões que eu te acordo viu?
- Você não entende, têm o diabo de ferro que já deve estar chegando
- Deve ser pra te assustar
- Não, tenho certeza. Eu estava no lugar dele, e ele deve estar pra chegar
- Você vai voltar sim e vai fazer exatamente o que eu estou mandando que faça. Tome isso. Abra a boca.
Antígono enfiou alguns comprimidos na boca do irmão que relutante adormeceu por força da forte química. As nuvens foram se dissipando e tudo o que se via era o lugar já conhecido. A bolsa segura com toda a força contra o peito e o velho vindo ao longe esbaforido, gesticulando bastante. Não conseguia ouvir o que ele queria dizer. O que interessava era a outra bolsa que ele carregava em uma das mãos. Vinha num arremedo de corrida. Tropeçou duas vezes e em uma delas foi ao chão. Estranho aquele nervoso, e a mão socando o ar com o dedo indicador em riste como a mostrar algo acima da minha cabeça. Olhei pra cima e só vi o sol cáustico que rachava os meus lábios de secura e calor. Realmente estava difícil de compreender o que o velho queria. Distraidamente olhei para trás e um arrepio tomou conta da minha espinha. Era ele. Nada mais havia por fazer. Gritaria, mas o diabo de ferro seria mais rápido que os tapas de Antígono.
----
- Acorde porra, acorde! - Antígono esmurrava a cara do irmão enquanto assistia horrorizado pedaços do corpo do irmão soltarem-se e cairem no chão do quarto. Havia uma lama de sangue e vísceras no colchão. O rosto de Misantropo virou uma amálgama de massa cinzenta e ossos de crânia retorcidos numa cena grotesca. Antígono afastava-se lentamente do cadáveresfacelado, paralisado de medo, sem entender nada. As pernas decepadas e o tóraz partido ao meio. A cabeça disforme. As paredes do quarto salpicadas de vermelho. Nada daquilo fazia sentido. Misantropo estava sonhando apenas. Andou mais tres passos de costas, virou-se de frente para a janela, abriu-a. Subiu no parapeito e jogou-se.
--------
- Pobre rapaz - disse o velho. - Tentei avisar que o trem vinha logo atrás. Pagou com a sua obediência. Algo devia tê-lo feito acordar a tempo. O diabo faz das suas mais uma vez.
E se foi andando com as duas bolsas.